4. BRASIL 31.7.13

1. INTRIGA DE GOVERNO
2. OS TONTOS COM ASAS

1. INTRIGA DE GOVERNO
O ministro da Educao procurou o vice-presidente da Repblica para propor um plano inslito: convencer Dilma Rousseff a demitir o ministro da Fazenda.
ROBSON BONIN

     A meterica queda de popularidade dos governantes no foi a nica consequncia imediata dos protestos que tomaram as ruas do pas h pouco mais de um ms. Eles tambm desestabilizaram governos e alianas polticas que se mantinham unidos diante da perspectiva  cada vez mais incerta  de vitria nas eleies de 2014. Na semana passada, um graduado auxiliar da presidente Dilma Rousseff fez o seguinte diagnstico: "O clima no governo nunca esteve to ruim.  um clima de barata voa, muito fogo amigo, ministro atacando ministro, uma situao catica. Est todo mundo brigando com todo mundo, falando mal de todo mundo". O melhor exemplo dessa atmosfera de desentendimento ocorreu na quinta-feira 18, numa reunio entre o vice-presidente da Repblica, Michel Temer (PMDB), e o ministro da Educao, Aloizio Mercadante (PT). Era para ser uma agenda de rotina, mas a conversa trilhou o caminho de uma inslita conspirao que teve como alvo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, j devidamente acossado por polticos, empresrios e sindicatos devido ao desempenho pfio da economia brasileira. 
     Com a autoridade de quem desfila pelos gabinetes de Braslia como uma espcie de primeiro-ministro informal de Dilma, e de quem foi conselheiro econmico do ex-presidente Lula, Mercadante props o plano para forar a demisso de Mantega. Ele chegou ao Palcio do Jaburu pouco antes das 9 da manh. Travou a conversa com Temer num conjunto de poltronas que ficam em um canto reservado do salo principal da residncia oficial do vice-presidente da Repblica. De incio, Mercadante criticou a articulao poltica e a atuao da equipe econmica, reproduzindo queixas correntes no Congresso. Depois, o petista foi mais incisivo e falou que o governo precisava de gente mais competente e com mais autonomia nessas duas reas. Temer, um especialista na arte de ouvir e medir as palavras, apenas acompanhava o raciocnio do interlocutor, sem pontu-lo. Mercadante, ento, apresentou seu plano maquiavlico: fazer com que diferentes interlocutores com prestgio junto a Dilma, como o prprio Temer, passassem a desconstruir a credibilidade do ministro da Fazenda. Se isso fosse feito como planejado, a presidente seria convencida, sem se sentir pressionada, a demitir Mantega. "A presidente no reage bem quando se sente cobrada. Ento, no adianta pressionar. Daqui para a frente, nas conversas com ela, todos deveramos falar a mesma lngua." 
     A estratgia, segundo Mercadante, teria de ser posta em prtica logo, para que as mudanas ocorressem em setembro. O alvo e o argumento do petista foram escolhidos a dedo. O pssimo desempenho da economia  uma das explicaes para a queda vertiginosa de popularidade de Dilma. Nesse contexto, mudar o comando da equipe econmica seria fundamental para que a aliana PT-PMDB tenha chance de vencer a prxima sucesso presidencial. "A sada  uma reformulao total", ponderou Mercadante, lembrando que demitir s o secretrio do Tesouro, Arno Augustin  como sugerem importantes assessores da presidente , no estancaria a crise. A referncia a setembro foi feita como forma de adular os peemedebistas. Uma ala do partido defende uma reforma ministerial imediata. Para entregar os cargos, como sugeriu o lder da bancada na Cmara, Eduardo Cunha? Longe disso. Com as trocas, o partido quer assumir pastas com mais recursos  disposio e mais visibilidade poltica. Desde o incio do governo, foram vrias as ofensivas pela demisso de Mantega. A presidente sempre resistiu a elas, apoiando o ministro da Fazenda. Ciente disso, Temer no disfarou sua contrariedade com o plano de Mercadante. No era para menos. 
     De maneira inesperada, o vice-presidente da Repblica fora envolvido numa trama para derrubar o titular da Fazenda num momento em que a economia patina de mos dadas com o prprio governo. Pior. Essa conspirao era patrocinada pelo principal conselheiro poltico da presidente. Temer no quis alongar a conversa. Ele aproveitou a chegada do ministro da Aviao Civil, o peemedebista Moreira Franco, para mudar de assunto.  Mercadante saiu do Jaburu sem a mercadoria que queria. J Temer passou a histria adiante. Nos dias seguintes, ele narrou o episdio a aliados no Congresso e no prprio governo, sempre, segundo os interlocutores, se mostrando contrariado. "O Mercadante est fazendo a cabea de todo mundo para derrubar o Mantega. Mas o Michel no concordou. Isso acaba vazando e tocando fogo no governo", diz um senador peemedebista. A VEJA, Temer confirmou o encontro com Mercadante, mas disse que ele, Temer, no props nenhuma mudana ministerial, porque isso  uma "prerrogativa da presidente". "Encontrei o Mercadante para fazer uma anlise das relaes do governo com o Congresso e o empresariado", disse. 
     J o ministro da Educao negou a conspirata: "Jamais tratei de mudana na equipe econmica com o vice-presidente Michel Temer ou com qualquer pessoa, em qualquer circunstncia. No  da minha alada o assunto e no est na pauta do governo, conforme a presidenta j afirmou em nota pblica". Dois dias depois da conversa entre o ministro e o vice-presidente, dirigentes do PT aprovaram um documento que pede mudanas no governo  entre elas, na economia e na articulao poltica. Dilma sabia que esse fogo amigo estava sendo urdido pelos petistas. Por isso, no apareceu na reunio do partido. Quem responde pela articulao poltica  a ministra Ideli Salvatti, que no perdoa o fato de Mercadante agir no Congresso como se fosse ele o responsvel pelas negociaes com deputados e senadores. Chefe da Casa Civil, a ministra Gleisi Hoffmann ecoa Ideli e repete as mesmas crticas s interferncias indevidas e  desenvoltura desmedida do ministro da Educao. Mercadante quer suceder a Gleisi no posto. Considerado um trator pelos prprios petistas, ele quer o cargo com os mesmos poderes de que gozava o mensaleiro Jos Dirceu. Ou seja: Mercadante substituiria Ideli e Gleisi juntas. Valeria pelas duas. 
     Esse apetite, somado s ingerncias,  um catalisador do caos administrativo. Numa reunio do Conselho de Desenvolvimento Econmico e Social, por exemplo, o ministro da Sade, Alexandre Padilha, fez questo de declarar que discursaria pouco porque Mercadante, ministro da Educao, j havia falado quase tudo sobre a rea da sade. Uma queixa polida na forma, mas contundente no contedo. "A Ideli est revoltada com o Mercadante, a Gleisi tambm. Depois da reunio do conselho, a prpria Dilma deu um chega pra l nele, porque o Mercadante no pode ver uma brecha que quer ocup-la", diz um senador petista. Mercadante sabe que no  querido no PT. Por isso, aposta as fichas no PMDB. Nos ltimos meses, tornou-se um interlocutor frequente de cardeais como Renan Calheiros, presidente do Senado, Henrique Eduardo Alves, comandante da Cmara, e Temer.  neles que procura apoio para se cacifar politicamente. Uma jogada perigosa. O clima que j est ruim pode ficar ainda pior. 

A SOLUO  O LOBISTA?
     Desde que explodiram as primeiras manifestaes populares, o ex-presidente Lula recolheu-se em um conveniente silncio. Reao compreensvel. Afinal, pela primeira vez nos ltimos vinte anos, as ruas foram tomadas sem a participao ou o incentivo de petistas. Pior, havia um clima de hostilidade aos partidos, principalmente ao PT. Quando os protestos atingiram o pice, em junho, Lula isolou-se ainda mais e viajou  frica para retomar as atividades de lobista de grandes empresas brasileiras e multinacionais. Sem o lder, o PT perdeu o rumo. Primeiro tentou se incluir nos protestos  e foi devidamente expulso. Depois tentou capitalizar os efeitos, o que tambm no funcionou. Os danos imediatos foram gigantescos. A presidente Dilma Rousseff perdeu mais de 20 pontos de sua popularidade. O PT, que teve sua histria construda junto dos movimentos sociais, entrou em parafuso. Seus principais lderes  convertidos em honorveis pelegos  no tiveram condies de reagir. O que parecia improvvel  a perspectiva de uma derrota eleitoral em 2014  se mostra uma hiptese real. Foi nesse cenrio que Lula reapareceu com a soluo para todos os males do partido. 
     O PT fez na semana passada, em Salvador, uma celebrao de seus dez anos de poder. Ao lado da presidente Dilma, Lula anunciou que vai se empenhar para resgatar a imagem do partido: "Tem petista que se mata pelo PT  e que est esperando de ns uma palavra para andar de cabea erguida. Porque ele fica envergonhado quando ouve que o pessoal do PT participa de coisa de que no deveria participar". Fazer lobby na frica para multinacionais seria uma dessas coisas? "Qual  a diferena de nossos candidatos para os de outros partidos?" Do fundo do auditrio, militantes do MST responderam a Lula: "Nenhuma!". T a a prova de que o MST talvez no seja to deletrio quanto se diz por a. Para alguma coisa ele serviu.
ADRIANO CEOLIN


2. OS TONTOS COM ASAS
S a transparncia pode acabar com o mau hbito das autoridades de usar o bem pblico como se fosse propriedade privada.

     O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, no  um nefito. Em pouco mais de vinte anos de Braslia, j foi at presidente da Cmara. Soma hoje seis mandatos de deputado federal. , portanto, um poltico experiente, que sabe discernir entre o certo e o errado, o moral e o imoral, alm de ser conhecido como um homem austero. Em fevereiro passado, ele foi a Cuba cumprir uma extensa agenda de compromissos relacionados aos Jogos Olmpicos de 2016. Viajou em um avio da Fora Area Brasileira (FAB) acompanhado de sete assessores, da mulher e do filho. Como era uma viagem de trabalho, no havia justificativa funcional para a presena dos familiares. Questionado, o ministro explicou que a mulher e o filho participaram de alguns eventos e cumpriram uma programao estabelecida pelo governo cubano  que incluiu,  Praia de Varadero. Surgiu a controvrsia. A legislao que regulamenta o uso das aeronaves oficiais estabelece que os avies podem ser requisitados em viagens a servio. Nada diz sobre eventuais acompanhantes. Portanto, em tese, o ministro no incorreu em nenhuma infrao administrativa ao aproveitar os feriados de Carnaval no Brasil para levar a famlia a Havana. 
     Os detalhes da viagem do ministro foram revelados pelo jornal Folha de S.Paulo quase cinco meses depois. Os parentes de Rebelo no constavam sequer da lista oficial de passageiros. Para ampliar a polmica, os assessores do ministrio ainda postaram fotos nas redes  sociais como se estivessem participando de uma agradvel excurso. A lei maior do pas, a Constituio, reza que a transparncia deve ser um princpio da administrao pblica, assim como a moralidade e a eficincia. Quando se trata de gastos bancados com dinheiro pblico, ento, esse imperativo deveria ser levado s ltimas consequncias. No fosse uma quimera para os polticos, a transparncia poderia evitar de pequenos constrangimentos a grandes escndalos, por uma simples razo: eles pensariam duas vezes antes de cometer deslizes se tivessem a certeza de estar permanentemente sob o escrutnio dos cidados. Na esteira da polmica envolvendo o uso de jatos oficiais, o governo anunciou a divulgao de todos os voos a servio de autoridades. Mais uma soluo de emergncia que, para variar, no resolve o problema, especialmente porque a lista de passageiros continuar sob sigilo. Como a cultura do segredo ainda se impe, os polticos se sentem livres para transgredir e continuar tratando o bem pblico como se fosse privado. 
ROBSON BONIN


